foi brasília que me criou
Emprestamos da essência que fundou Brasília um aspecto essencial para definir a nós mesmos: a centralidade. Na prática de projetar, isso também se traduz em equilíbrio, balanço e harmonia.
Cercados pelo que o modernismo brasileiro produziu de melhor, encontramos inspiração em nossos próprios mestres. Equilibramos nossa prática arquitetônica, valorizando profundamente os aspectos técnicos e formais, sem perder de vista o compromisso de embelezar a cidade e provocar admiração nas pessoas, em diferentes escalas, do morador ao caminhante.
Nascidos e criados aqui, conhecemos como ninguém estas ruas e suas pessoas. Porque vivemos, desde cedo, o modo de pensar e fazer desta cidade, dominamos seus códigos, suas regras e até suas manias. Traduzimos esse conhecimento em projetos que respeitam o legado da capital e a filosofia de seus criadores, mas que incorporam, com harmonia, o que de melhor nosso tempo é capaz de produzir.
Nossa arquitetura é eficiente, versátil e se desafia ao máximo aproveitamento e à plena funcionalidade. Somente conseguimos entregar racionalidade porque nosso coração é apaixonado, porque sabemos que este é o nosso lugar e, através da arquitetura, escrevemos um novo tempo.
Eu não criei Brasília. Foi Brasília que me criou.
Meio século atrás, a arquitetura me persuadiu a ser cúmplice de uma revolução. Queríamos mais honestidade, um essencialismo estético e filosófico. Acreditávamos que, ao desnudar a intenção e valorizar a essência, transformaríamos a arquitetura em uma expressão de liberdade.
Em certa medida, penso que minha geração concretizou esse desafio.
Ao que era rígido, trouxemos movimento, eficiência e humanidade. Brasília nos deu a oportunidade de criar um novo modelo urbano, livre das limitações tradicionais, desafiando convenções e elevando a simplicidade ao patamar de expressão artística.
Construía-se monumentalidade para inspirar.
Mas acredito que ainda há desafios a revisitar. Ideais a atualizar à luz do sentimento, da tecnologia e da visão contemporâneos. Niemeyer via Brasília como um símbolo de coragem e concebeu nela uma expressão de identidade cultural que consagrou o Brasil. Eu vejo Brasília como um laboratório, um experimento onde vivemos a ideia e idealizamos a vida.
Agora, é tempo de uma nova revolução para uma nova geração.
Sinto, com a intuição profissional enraizada nesse planalto, que é hora de ouvir mais para compreender melhor. Temos a oportunidade de aliar ousadia à eficiência, versatilidade à diversidade, artesanalidade à escala de reprodução. Isso é atemporalidade.
Porque esta cidade me criou, sigo eu criando um pouco dela também. Com respeito, honrando seu legado, e com ambição, projetando um futuro melhor. Sinto que é tempo de desenhar a nova arquitetura de Brasília. – Geraldo Estrela